Corpo jazz: toda a luz está na música por Susana S. Arins



Como adolescente leitora de Julio Cortázar, tenho gravada na memória o relato El Perseguidor, aquele saxofonista de jazz levado do álcool e as drogas que se perde de si próprio na música. Lembro a leitura um pouco alucinada, pois era eu desconhecedora do jazz e os seus mundos de improvisações e estándares, e as visões metafísicas do Johnny Carter ficavam longe de mim. Desconheço se a Jackie Kay conhece este relato, porém a sensação foi a de ela escrever à contra. 

Kay coloca diante nossa outro génio musical: Joss Moody, trompetista. Escocês, negro, de família humilde, pretendido músico de jazz. Muitas papeletas para ficar à margem. Porém, Joss consegue fazer-se um lugar no mundo artístico e, quando morre, é saudado assim, como grande músico. As pessoas que o quiseram e as que o conheceram evocam a sua figura, ao mesmo tempo que jornalistas procuram a reportagem melhor sobre ele. Essa devera ser a essência da trama: o réquiem final, de amores e ódios, por uma pessoa que falece. A viúva a viver o seu dó, o filho a internar-se na orfandade, as amizades a esmiuçar pecadinhos de artista, a trabalhadora da casa a rejoubar das misérias conjugais dele. 

Dele ou dela. 

Porque o dia do falecimento do Joss faz-se público um feito privado só conhecido pola sua viúva: tinha corpo de mulher. E isso faz com que muitas das pessoas que o quiseram ou o conheceram duvidem da verdade que viveram com ele, que mudem a olhada sobre a pessoa, a sua música, as suas decisões. E faz com que abutres jornalísticos procurem rapina onde só há uma pessoa falecida. 

O livro organiza-se em capítulos de vozes variadas: as pessoas da vida de Joss (viúva, filho, amizades infantis, amizades adultas, mãe) e as pessoas da sua morte (forense, funerário, notário…) narram as suas convivências ou os seus encontros com ele. Têm protagonismo especial mãe e filho, ela a navegar o loito, ele a transitar a raiva. Outra voz protagonista é a da jornalista que procura escrever O livro sobre o Joss Moddy, ou a Josephine Moddy, em realidade. Partindo dessas narrações variadas as leitoras acedemos não tanto a uma visão poliédrica do que pôde ser a vida do trompetista, mas a uma visão poliédrica sobre as atitudes transfóbicas ou respeitosas da diversidade sexual na nossa sociedade. As personagens exprimem as suas impressões perante o descobrimento sobre o Joss e colocam diante nossa todo o catálogo de preconceitos e (in)sensibilidades que unha pessoa diversa pode encontrar no seu dia a dia. 

Joss Moddy só tem voz em um capítulo. Nele narra a sua própria morte. E o seu encontro coma música. A morte como transo, a música como transo. O transo sem corpo. Na música e na morte. 

Para mim este é um dos grandes acertos da autora. Em quanto (muitas d)as personagens divagam sobre qual o corpo do Joss, qual o seu nome, qual a sua identidade, ele define-se a si próprio como alguém que apanhou um corpo estándar, e fez dele a sua versão baseada na improvisação. Autêntico jazz.

São muitas as correntes e subtemas que recorrem este romance, que merece um leitura atenta e apaixonada: o labor dos meios de comunicação de massas, o contraste rural/urbano, as identidades nacionais, o racismo. 

A surpresa enorme para nós, leitoras, foi ler nos créditos a data de publicação da obra. Porque Jackie Kay escreveu esta maravilha noutros tempos que eram, como diz tanta gente, sem a visibilidade atual das diversidades LGTBIQ+: 1998, há bem mais de 20 anos. 

E deve ser mencionado o labor essencial das mediadoras que perseguem para nós estes textos. Neste caso, a tradutora, María Reimóndez, ademais do trabalho brutal de agalegar o texto para nós (em todos os sentidos), manteve o empenho em procurar editora galega para esta obra, ao considerá-la necessária no nosso repertório literário (concordamos). Este é também o labor das boas tradutoras. Essas são as perseguidoras. 


Trompeta, de Jackie Kay

Tradução de María Reimóndez

Hugin e Munin 2023

Comentarios