Todas as pessoas teríamos que ser feministas, mesmo as tradutoras por Susana Aríns

Fotografía Paula Gómez del Valle

Todas as pessoas teríamos que ser feministas, mesmo as tradutoras.

És feminista?

Sim
Não
Bom... / Imos ver... / Que percebes por feminista? / Sim, mas… / Eu sou humanista. / etc

Se a tua resposta é sim, quiçá o opúsculo Todos teríamos que ser feministas não seja para ti. Mesmo se respostas não podes escusar a leitura (para que? Também não estarás a ler isto, provavelmente). Mas se fazes parte no terceiro grupo, no das pessoas reticentes a dizer de boca cheia, Sim, sou feminista, embora sensíveis à questões de género, este sim é o teu livro.

Chimamanda Ngozi Adichie preparou uma palestra TED para explicar o feminismo a pessoas não feministas. E o texto dessa palestra, minimamente adaptado, foi publicado posteriormente. Gozamos da vantagem de poder ler o texto e escuitar a autora, que o modula e matiza com as suas pausas, silêncios e inflexões.

Ngozi Adichie faz um recorrido vital por momentos e experiências pessoais com os que justifica a necessidade do feminismo. Começa com o próprio conceito, feminista, que ela percebeu por vez primeira recebido como insulto. E evoca cada um dos encontros com essa palavra até chegar a se definir como uma “feminista feliz africana que não odeia os homens e gosta do batom nos lábios e dos saltos para ela mesma e não para os homens”. Já neste introito damos com uma das armas da autora para ganhar às leitoras: o humor. 
 
Pequenas anedotas funcionam com novelos a partir dos quais, desemburulhados, são tecidas reflexões sobre o que é a vida diária de qualquer mulher em qualquer lugar do mundo. Porque se pensávamos que Ngozi Adichie só ia reflexionar sobre A Mulher Africana (nigeriana, em todo o caso), ela coloca por entre os exemplos as suas amigas americanas, europeias. E se pensávamos que só ia reflexionar sobre A Mulher Universitária, ela coloca por entre os exemplos as suas amigas universitárias, sem trabalho, proletárias, sem estudos. E se pensávamos que só ia reflexionar sobre uma questão concreta, consegue tecer um tapete que recolhe infância, mundo laboral, maternidades, adolescência, afetos, educação, velhice, estudos… Cada apartado é o pé para uma conversa, um debate, um, e eu? E todo isto em cinquenta breves páginas. É por isso uma obra especialmente interessante para o trabalho em salas de aulas.

Uma das principais preocupações da autora é fazer ver o que vivemos e sentimos as mulheres no dia a dia, os subtis ataques quotidianos à nossa identidade de género. Desbota a teorização (aborreceu os “textos clássicos do feminismo”, pag. 16) e opta pola sensibilização. Ela mesma o afirma: “unha cousa é saber algo no plano intelectual e outra sentilo no plano emocional” (pág. 25). Assim, oferece-nos esse plano, o emocional. Quem queira continuar a aprender, ou a desaprender, como propõe, só tem que seguir a pensar e a buscar.

Porém, lendo este opúsculo, sentim-me uma feminista feliz galega que não odeia os homens e gosta do batom e dos saltos só no antroido e que raiva quando lê mal traduzidas feministas felizes africanas que não odeiam os homens e gostam do batom nos lábios e dos saltos para elas mesmas e não para os homens.

A própria autora dá importância brutal ao uso não discriminatório da língua. Lembremos que começa o seu discurso reflexionando sobre a palavra feminista e os seus usos. E se atendemos ao texto original em inglês, tem um especial cuidado na escolha dos nomes, buscando os neutros para universalizar e só, só, recorrendo a masculinos e femininos quando quer pôr em destaque o género duma pessoa em concreto porque é pertinente para o que vai narrar. Fala de “children” para a generalidade da infância, mas utiliza “boy” e “girl” quando quer narrar experiências diferenciadas para meninos e meninas. Mesmo recorre a duplicados para enfatizar: “both, the boy and the girl”. Reparemos no título: We Should All Be Feminist. Gostava eu de saber onde a marca de masculino na escolha da autora. Por isso não percebo por quê, havendo opções mais respeitosas1 com a forma e o fundo do texto, não foram elegidas polo tradutor. 
 
Todo o que encontramos ao longo do livro é uma falta de critério claro no uso de genéricos e masculinos, o que induz a confusões na leitura: justo isso que nos provoca no dia a dia às mulheres o uso machista da língua. A autora sai em Lagos com “os seus amigos” (pág. 20), e lemos o trecho todo sem acabar de saber se entre os amigos há ou não mulheres, se em Lagos as mulheres não saem e só o faz ela ou se esse “os amigos” as inclui a todas. Claro, no original, ela utiliza o termo “friends”, que bem podia ser traduzido por “amizades” para evitar-nos o sarilho. Porque mais adiante centra-se a autora na educação dos meninos, e aí sim, aí sim que fala só deles, dos “boys” (pág. 30). Só que nós temos que continuar a leitura até deduzir isto, porque o neutro é masculino e o masculino é neutro e o masculino é masculino e o masculino é universal e o universal nunca é mulher. 
 
Mesmo há, por vezes, uma masculinização abusiva por inecessária: onde a autora utiliza “some people”, que pode literalmente ser traduzido por “algumas pessoas”, o tradutor opta por “algúns”. Chega a colocar a autora enunciando-se em masculino, cousa que nos choca e parece quase impensável: “nalgún momento todos pensaremos” (pág. 19), “o que era obvio para min non o era para todos os demais” (pág. 20), “Todos teríamos que sentir xenreira” (pág. 25), “Todos somos seres sociais” (pág. 34), “aqueles que o quixemos” (pág. 49), e assim por diante. Como dizia aquela propaganda, ela nunca o faria. Mesmo outros são conscientes de que há outra maneira de fazer2.

Porém, se algo choca em mim como maço de ferraria, é a tradução de “gender” como “roles de xénero”, sobre todo tendo em conta que o conceito feminista galego nasce do inglês. Sim, em galego podemos escrever género com o significado de papéis, comportamentos, atividades e atributos socialmente construídos que uma determinada sociedade considera apropriados para homens e mulheres"3. Os “roles de género” são só um elemento mais da definição.

Só duas explicações encontro a tal despropósito: ou a ignorância ou uma intencionalidade ideológica4 que busca apropriar-se, matizando-o e suavizando-o, de um discurso feminista de, vaia por deus, uma autora na moda5. E qualquer das duas possibilidades implica um desrespeito total à autora e a todo o seu leitorado. Violenta-se o discurso (feminista) de Chimamanda Ngozi Adichie, distorsionando-o e, portanto, negando-o.

E claro, as feministas felizes galegas que não odiamos os homens e gostamos do batom e dos saltos só no antroido unicamente podemos sentir xenreira. Mas não há problema, porque como bem diz Chimamanda Ngozi Adichie, a xenreira tem um longo historial como detonante de mudanças positivas.

Vamos pensar em quais… 

 

Chimamanda Ngozi Adichie: Todos teríamos que ser feministas
Tradução de Moisés Barcia. Sushi Books 2017.

Chimamanda Ngozi Adichie: We Shoud All Be Feminist
Palestra TEDxEuston. https://www.youtube.com/watch?v=hg3umXU_qWc


1Todas as pessoas teríamos que ser feministas, todo o mundo teria que ser feminista, por exemplo.
2 Cualquier intervención del traductor que fuera en dirección a esta corrección política en cuestiones raciales, de género u otro tipo, sería inmediatamente modificada por los correctores de la editorial pertinente. Por ejemplo, hace un par de años yo traduje un libro titulado We Should Be All Feminists, la traducción del título ya encerraba una trampa de por sí. La traducción correcta en mi opinión sería "todo el mundo debería ser feminista", pero la traducción correcta según la RAE, que considera que el masculino es el género no marcado, hace que ese libro cuando salga a las librerías se traduzca como "todos deberíamos ser feministas". Con esto quiero decir que no creo que haya ningún tipo de presión a este respecto a la hora de traducir.

El fantasma de la traducción. Lorena Paz López entrevista a Javier Calvo. http://www.insulaeuropea.eu/letture/lopez_calvo_es.pdf

3Definição da OMS, organização nada suspeita de feminismo.

4E conhecendo tanto o corpus teórico sobre o tema e a quantidade e qualidade de tradutoras feministas existentes como os antecedentes do responsável com o feminismo e a tradução, penso mais no segundo que no primeiro:  http://www.galicia21journal.org/A/pdf/galicia21_6_reimondez.pdf
 
5Que ela seja a única autora do catálogo com fotografia pessoal na capa é curioso…
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