O quarto de Susana Aríns

Quarto próprio

Criada numa família numerosa com casa pequena e todo comunal, nunca achei de menos um quarto próprio. Até o ter. Fui estudar a Santiago e contei com um quarto nos depauperados pavilhões do Burgo, graças aos quais tantas pudemos fazer carreira. E aí desatou-se a minha atividade escritora. A soidade era pouca: paredes de papel e muita atividade estudantil, mas fechada a porta, o mundo era todo meu. E quando tive outra vez um quarto próprio, em Lisboa, acompanhado da solidão mais absoluta (sozinha numa cidade desconhecida), aí foi um não parar. Cadernos, cadernos, cadernos. Creio que foi em Lisboa que li a Woolf e senti que eu estava a viver o processo que ela narrava no ensaio.





Com a experiência, aprendi a encontrar a intimidade em qualquer lugar: sou quem de escrever o rascunho de um texto no meio de uma palestra, de um jantar, de um café de barulho ensurdecedor. Isso sim: a revisão deve ser feita em solidão. Para isso nada substitui o quarto próprio. Mesmo a distância incrementa a capacidade revisora: provei novamente a bakardadea total, refugiando-me em Pasaia, onde até a língua do café da manhã me isolava, para acabar o seique. A prova irrefutável.
Porém, com o tempo, cai noutra conta: quase todas as ideias para a escrita nascem-me de conversas, encontros, anedotas, acontecidas no trabalho, na festa, no café, na compra. Sobre todo de conversas. E dei em ver que do que eu preciso é da exata e certa combinação entre soidade e companhia, intimidade e comunidade. Tenho que dialogar no mundo para poder esconder-me no meu acovilho e escrever. Por isso penso que o quarto próprio de Virginia Woolf deve ir acompanhado de vida em comunidade, de encontro.
Em tendo essas parcelas, o resultado é a criação.
Para mim foi objetivo vital. Criada numa família numerosa com casa pequena e todo comunal queria contar com um quarto próprio. E dei. Edifiquei um maravilhoso refúgio para agachar-me de vós e com todo a mão: luz, livros, impressora, lembranças, dicionários… mas também é certo que quase sempre o refúgio é bem mais simples: sofá, manta, livro e computador.
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